As histórias de uma guerra

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Entrevista Paulina Chiziane


Paulina Chiziane - Ser escritora é uma ousadia!!!

Entrevista concedida a Rogério Manjate, ao telefone


Maderazinco - o teu próximo livro, o quarto, está previsto para Setembro sob chancela da Caminho de Lisboa, e mais tarde em Maputo pela Ndjira. Fala-nos um pouco deste livro.


Paulina - o livro chama-se Niketche, nome de uma dança da Zambézia e Nampula, norte de Moçambique, que as raparigas executam à saída dos ritos de iniciação. A razão do título? A história fala da sexualidade, e é escrita na Zambézia. Que melhor homenagem posso dar a terra onde escrevi esta história? Niketche é uma dança belíssima. Erótica. Adoro esta dança.O livro conta uma história sobre relações entre homens e mulheres. Sou uma escritora do sul, que vai viver para o norte. Comecei a observar vivências diferentes das minhas e decidi escrever sobre elas. O livro versa a sexualidade e a diferença entre o norte e o sul nesse campo. Somos o mesmo país, mas somos diferentes. A principal personagem do livro, um homem do sul, tem cinco mulheres diferentes (cultural e geograficamente): de Maputo, de Inhambane, da Zambézia, de Nampula, de Cabo Delgado. Isto é, um marido nacional. Para além das cinco esposas tem uma amante maconde. E elas apesar de esposas de único homem são muito uni-das, e juntaram-se numa coisa que elas chamam clube das esposas. Esta história é daquelas que dá prazer de ler, foge um pouco dos anteriores livros.


Maderazinco - Então pode ser uma espécie de continuação de "O Sétimo Juramento", olhando para esta situação das mulheres apesar de nesse livro ser uma esposa e uma amante que no fim se juntam...


Paulina - Não, eu aqui falo da poligamia como um aspecto cultural. E este livro eu considero como sendo continuação de "A Balada de Amor ao Vento". Eu de certa maneira voltei ao líri-co, e não tem nada a ver com o último livro, "O Sétimo Juramento", esta história é mais agradável de ler, mais leve...


Maderazinco - É um livro de uma mulher a falar sobre mulheres?


Paulina - São as mulheres a falarem de si próprias, a falar sobre o mundo das mulheres...


Maderazinco - refiro-me a escritora.


Paulina - Oh não sei, porque elas são tão diferentes de mim e tão distantes, apesar de eu es-crever na primeira pessoa. E eu gosto de escrever na primeira pessoa porque me permite par-ticipar mais na história. E nós como mulheres temos as coisas que falamos só entre nós mu-lheres e em voz baixa; meio sagrado... o que é que as mulheres dizem do seu marido quando estão entre elas? Então são estes pequenos nadas que eu junto para fazer a teia desta história.


Maderazinco- Será uma visão feminista?


Paulina - Estou me nas tintas... que o chamem. Eu sou uma mulher e falo de mulheres, então eu sou feminista? É simplesmente conversa de mulher para mulher, não é para reivindicar nada, nem exigir direitos disto ou daquilo, porque as mulheres têm um mundo só delas e é isso que eu escrevi, e espero que isso não traga nenhum tipo de problemas, porque há ainda pessoas que não estão habituadas e não conseguem ver as coisas com isenção.O livro tem uma mensagem escondida: as mulheres, de mãos dadas, podem melhorar o seu mundo - foi o que aconteceu ao longo da história. Fizeram das diferenças um mosaico belo e melhoraram as suas vidas. Quero apenas dizer que não há norte sem sul e vice-versa. Todos precisamos uns dos outros. E uma mensagem de unidade nacional se assim se pretende. Uma aventura entre os hábitos sexuais do norte e do sul, o confronto entre a cultura do matriarcado e do patriarcado. Mas tudo acaba bem.


Maderazinco - Qual é a tua experiência como escritora, mulher, moçambicana e africana?


Paulina - Ser mulher é muito complicado, e ser escritora é uma ousadia. Como é uma ousadia a mulher sair de madrugada ir a praia comprar peixe para vir cozinhar. A mulher está circuns-crita num espaço e quando salta essa fronteira sofre represálias, há quem não as sinte de uma forma directa, mas a grande maioria...


Maderazinco - E tu como escritora?


Paulina - É sempre uma dificuldade, porque primeiro, eu tenho de provar que sou capaz, de-pois tenho de conquistar um espaço. Eu tenho que trabalhar muito para mostrar que não foi por acaso que as coisas aconteceram. Mas agora estou numa fase mais estável em que as pessoas já não se assustam e, de certa maneira, já não implicam; mas para chegar até este ponto teve de ser uma batalha.


Maderazinco - Tu escreves para quem Paulina? Disseste que tiveste que provar que eras ca-paz, a quem tiveste que provar?


Paulina - Para mim escrever é uma maneira de estar no mundo. Eu preciso de meu espaço, é por isso que eu escrevo. Em primeiro lugar eu escrevo para existir, eu escrevo para mim. Eu existo no mundo e a minha existência repete-se nas outras pessoas. E neste caso é um livro, que depois será lido.


Maderazinco - Quais são as tuas referências literárias, e que provavelmente terão exercido uma influência na tua escrita ao longo destes anos?


Paulina - Esta é uma daquelas perguntas que eu não costumo responder, porque eu como es-critora leio quase de tudo que me aparece. O meu ponto de partida é a oralidade, e todos os meus trabalhos até hoje são baseados na tradição oral, daí que eu não gosto de dizer que fiz um romance, uma novela ou seja o que for. Eu conto uma história e ao contá-la acrescento um ponto. E ela pode ser grande ou pequena. Essa é a minha primeira receita. E a pessoa que me marcou muito, já na adolescência, é a Florbela Espanca. E de lá para cá vou lendo e vou fil-trando.


Maderazinco - qual é a tua opinião sobre literatura moçambicana nos últimos anos?


Paulina - acho que está a ganhar uma dinâmica maior nos últimos anos, há autores que come-çam a apostar muito seriamente e apresentam propostas novas. E há novos talentos, tantos, mas o que falta é uma mão, por exemplo aqui em Quelimane há um movimento muito grande.


Maputo, 10 Abril 2002.


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